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Por Everton Edvaldo

Texto Bíblico: “Saúda-vos Lucas, o médico amado, e Demas.” (Colossenses 4.14)

Introdução: É bem comum estarmos familiarizados com o nome do escritor do terceiro evangelho, isto é: Lucas! Quase que diariamente, seu nome é citado em nossas igrejas, pregações, ensinos, estudos e etc. Ou seja, Lucas não é um nome estranho para os evangélicos. Porém, será que podemos dizer o mesmo de sua pessoa? Não! Pouco sabemos sobre Lucas, comparado aos demais escritores neotestamentários. Quem foi Lucas? Onde nasceu? Qual seu papel dentro da Bíblia? Ele andou com Jesus? Era apóstolo? O que a Bíblia fala sobre ele? As respostas para essas perguntas, não são tão fáceis de serem encontradas atualmente. Isso se dá pelo menos por dois motivos. Primeiro: a Bíblia não nos dá informações abundantes sobre este homem. Segundo: é difícil encontrar livros que nos forneçam uma noção básica da vida de Lucas. Isso não significa que não exista nenhum conteúdo histórico sobre ele. Nesse artigo, pretendo mergulhar nessas questões que foram abordadas acima, a fim de que o leitor possa ter um melhor entendimento sobre a vida desse grande Evangelista! Boa leitura!

I- ALGUMAS CARACTERÍSTICAS SOBRE A PESSOA DE LUCAS:

Lucas certamente foi um dos personagens de suma importância para o Evangelho de Cristo. Entretanto, algumas peculiaridades devem ser esclarecidas sobre ele, como por exemplo:

  1. Lucas não era um dos 12 apóstolos e não foi testemunha ocular de Jesus.

Isso mesmo! Algumas pessoas imaginam que Lucas tenha sido um dos doze apóstolos e que acompanhou todo o ministério de Jesus. Esse entendimento não é verídico. Na lista dos doze apóstolos, não encontramos o nome de Lucas (cf Marcos 3:16-19 e Lucas 6: 13-16.). Na verdade, ele não foi testemunha ocular do ministério de Jesus e é provável que nunca o tenha visto. “Ele foi uma testemunha secundária, e não primária dos acontecimentos.” (ROBERTSON , 25).

Sobre isso nos ampliou o pastor, teólogo e escritor José Gonçalves: “Lucas, o médico amado, não foi um apóstolo nem tampouco foi uma testemunha ocular da vida de Jesus, todavia deixou uma das mais belas obras literárias já escritas sobre os feitos do Salvador e os primeiros anos da comunidade cristã.” (GONÇALVES, p. 11).

No “Cânon de Muratori” (cerca de 180 d.C.) podemos ler: “O terceiro livro do Evangelho é o de Lucas. Este Lucas, médico que depois da ascenção de Cristo foi levado por Paulo em suas viagens, escreveu sob seu nome as coisas que ouviu, uma vez que não chegou a conhecer o Senhor pessoalmente…” (citado em ULRICH, 2014, p. 48).

  1. Lucas não era judeu.

Para nossa surpresa, Lucas é o único escritor do Novo Testamento que era gentio. Elucidando esse fato, o erudito Robertson afirma: “É provável que Lucas fosse um grego, certamente um gentio, possivelmente um homem livre. Portanto, este homem que escreveu mais de um quarto do Novo Testamento não era judeu.” (ROBERTSON , p. 16). F.F. Bruce também comenta: “De tudo que nos é possível afirmar, Lucas é o único gentio dentre os escritores dos documentos neotestamentários.” (BRUCE, p. 105).

  1. Lucas era muito querido por Paulo.

Apesar de não ter convivido com Jesus, Paulo teve em sua companhia um homem extremamente instruído na vida e obra de Jesus Cristo. Era Lucas, seu médico amado. Na época de Paulo, ainda não havia sido escrito o evangelho de João, porém os sinópticos já circulavam. Quando lemos em geral, as epístolas de Paulo, notamos que ele gostava muito de usar como referência o Evangelho de Lucas. Provavelmente ele tinha uma cópia providenciada pelo próprio Lucas. Dessa forma, Lucas ocupou um espaço muito importante na vida do apóstolo.

Além disso, os dois trabalhavam juntos. Lucas cooperava com o reino de Cristo juntamente com Paulo. “Paulo chama a Lucas de ‘médico amado’ (Cl 4.14), na verdade ‘meu médico amado.’ Eles trabalharam juntos na Ilha de Malta (At 28. 8-10) onde muitos foram curados (…).” (ROBERTSON, p.15).

II- AUTOR DO TERCEIRO EVANGELHO E DO LIVRO DE ATOS DOS APÓSTOLOS:

  1. Argumentos históricos a favor da autoria lucana.

O Evangelista Lucas escreveu dois livros da Bíblia. São eles: o Evangelho que leva seu nome e o livro de Atos dos Apóstolos. Existem evidências históricas que creditam a Lucas a autoria do livro? Sim! Por exemplo: “Todos os manuscritos gregos creditam o Evangelho a Lucas, no título. (…) Irineu definitivamente atribui o Evangelho a Lucas, como também o fazem Clemente de Alexandria, Tertuliano, e o Fragmento Muratoriano.” (ROBERTSON, p. 16).

Uma outra evidência histórica a favor da autoria lucana do evangelho e de Atos foi registrada por Eusébio de Cesareia. Ele diz: “Mas Lucas, nascido em Antioquia e médico de profissão, por muito tempo companheiro de Paulo e bem familiarizado com os outros apóstolos, nos deixou em dois livros inspirados as instituições daquela arte de cura espiritual que deles obteve. Um deles é o Evangelho em que testifica ter registrado “de acordo com a tradição recebida dos que foram testemunhas oculares desde o princípio e ministros da palavra” a ele transmitida. Aos quais também, afima ele, seguiu em tudo. E o outro é os Atos dos Apóstolos que compôs não de acordo com testemunhos ouvidos dos outros, mas com o que viu com os próprios olhos. Também se diz que Paulo costumava citar o Evangelho de Lucas, chamando-o seu, dizia: ‘de acordo com o meu evangelho’.” (CESAREIA, pp. 81, 82).

  1. Peculiaridades do Evangelho.

O Evangelho de Lucas está repleto de peculiaridades. Você sabia que Lucas usa abundantemente termos médicos em seu Evangelho? Sim, isso pode ser constatado facilmente. “Lucas era médico e, como tal, aprendeu a investigar os fatos detalhadamente. Tinha um “olho clínico” acurado, devia detectar fatos que ninguém observava ou valorizava. Quando, muitos anos após a morte de Cristo, interrogou Pedro e colheu os detalhes daquela cena, captou um gesto de Jesus que passou desapercebido aos outros autores dos evangelhos.” (CURY, p. 34).

O Evangelho de Lucas é o mais acadêmico dos sinópticos. Foi um livro escrito para um ambiente gentílico e como tal precisava ser bem documentado. Em relação ao sinópticos, “cerca de 30% do Evangelho são exclusivos a Lucas.” (ULRICH, 2014, p. 51). Ou seja, não aparece nos outros evangelhos. “Lucas possui muitos trechos que são exclusivos.” (ULRICH, 201, p. 51.).

Outro fato interessante: “Temos em Lucas os primeiros hinos cristãos.” (ROBERTSON, p. 20).

III- CARACTERÍSTICAS COMO ESCRITOR:

  1. Lucas se preocupava com a precisão das suas obras.

Já vimos que dois livros belíssimos da Bíblia, saíram da pena do evangelista Lucas. Além de médico e servo de Deus, Lucas era um hábil escritor. A fim de fornecer a Teófilo com precisão a trajetória do Salvador, Lucas pesquisa acuradamente cada detalhe para começar sua obra. Ou seja, ele se comporta como um historiador de maestria. Através das suas obras, podemos perceber que ele era um historiador de qualidade e de confiança.

Sobre isso, escreveu Lee Strobel: “Lucas, que escreveu um quarto do Novo Testamento, tem se mostrado um historiador incrivelmente preciso, até mesmo nos menores detalhes. Um arqueologista estudou cuidadosamente as referencias de Lucas para trinta e dois países, cinquenta e quatro cidades e nove ilhas, e não encontrou um único erro sequer.” (ZACHARIAS, p. 83).

Augusto Cury também contribuiu nesse quesito. Comentando sobre o evangelho de Lucas, ele diz: “O evangelho de Lucas é um documento histórico bem pesquisado e detalhado. Ele consultou testemunhas oculares, selecionou as informações e as organizou de maneira adequada. Como médico, tinha interesse incomum por retratar assuntos da medicina (Lucas 1:1-2). Deu muita atenção aos acontecimentos referentes ao nascimento de Cristo. Investigou Isabel e Maria, e foi o único que descreveu seus cânticos, bem como os pensamentos íntimos de Maria. (…) Lucas era um investigador minucioso que captou particularidades de Cristo.” (CURY, p. 35).

Ou seja, sem dúvida alguma, Lucas era um escritor altamente estratégico e preciso! Bruce comenta: “Os escritos de Lucas qualificam-no como um escritor de precisão habitual.” (BRUCE, p.117). Esses aspectos revelam que seus escritos são documentos bem elaborados e confiáveis.

  1. Lucas era um escritor extremamente inteligente, eficiente e qualificado.

Seu principal objetivo era relatar os fatos tal como tinham acontecido. Nada deveria ser inventado. Para isso, ele foi busca de fontes confiáveis a fim de produzir seu Evangelho. Em relação a Atos dos Apóstolos, ele foi testemunha ocular de boa parte dos episódios. Bruce diz: “Lucas, o médico gentio, herdeiro das tradições da ciência histórica dos gregos, compôs seu escrito depois de fazer uma pesquisa cuidadosa, a fim de que seus leitores pudessem ter uma base segura do relato das origens cristãs que receberam.” (BRUCE, p. 59).

Era médico, tinha o melhor conhecimento de medicina existente em seu tempo. Um homem educado e conhecedor das principais literaturas gregas. Robertson diz: “Como um médico grego, Lucas era um homem de universidade que estava em contato com a ciência da sua época. A medicina grega é o início da ciência da medicina como é conhecida hoje. A tradição o chama de pintor, mas disso nada sabemos. Ele certamente foi um homem preocupado com o bem-estar do ser humano, um homem muito culto, de grande compaixão, além de ser muito simpático. Ele foi o primeiro cientista genuíno que enfrentou a questão de Cristo e do cristianismo. É preciso dizer que Lucas escreveu os seus livros com uma mente aberta, e não como um entusiasta crédulo.” (ROBERTSON, p. 17).

Ainda segundo Robertson: “Ele era um grande leitor da Septuaginta como é demostrado por hebraísmos ocasionais, evidentemente devido à leitura desta tradução grega.” (ROBERTSON, p. 21).

F.F. Bruce discorre acerca da educação que ele tinha: “Lucas herdou as altas tradições dos escritores gregos históricos e teve acesso a várias fontes excelentes de informação em relação aos eventos sobre os quais pesquisava, além de ter testemunhado muitos dos fatos que narrara.” (BRUCE, p. 106).

IV- AS FONTES USADAS POR LUCAS PARA ESCREVER SUAS OBRAS:

Apesar de ser muito inteligente, Lucas não hesitou em buscar fontes seguras para escrever suas obras. O próprio evangelista fala que procurou averiguar minuciosamente os fatos que aconteceram, e que quando começou a escrever, já existiam narrativas sobre as obras realizadas por Jesus. Alguns estudiosos afirmam, inclusive, que Lucas consultou os evangelhos de Mateus e Marcos. “Lucas teve as tradições das testemunhas oculares e dos ministros da palavra e as narrativas previamente redigidas. Se ele foi ou não contemporâneo do ministério de Jesus, não é particularmente pertinente. (…) Lucas se preparou para escrever, antes de começar, com um pleno e exato conhecimento do assunto.” (ROBERTSON, p. 27).

Entretanto, as fontes não se resumem a isso. O erudito Ulrich traça uma linha em torno disso, esclarecendo melhor as informações. Ele afirma:

“Muitos relatos sobre Jesus (o que devia incluir alguns dos Evangelhos) já estavam em circulação quando Lucas inicia o seu trabalho. Lucas não foi uma testemunha ocular de Jesus, ou seja, não foi um dos discípulos. Mas ele se esforça para pesquisar e aproveitar os relatos das testemunhas oculares. Lucas vem de um ambiente helênico e trabalha como um bom escritor do seu tempo: ele dedica a sua obra a um amigo (que tem um nome grego!); talvez Teófilo fosse uma pessoa de origem ilustre que incumbiu essa tarefa a Lucas. O método de trabalho de Lucas é conhecido: ele pesquisou tudo com muito cuidado!” (ULRICH, 2014, p. 48).

Comentando também sobre o assunto, explica F.F Bruce:

“A tradição antiga afirma que Lucas era natural de Antioquia. Se assim o for, ele teve oportunidades para aprender muita coisa dos fundadores da igreja antioquiana, a primeira igreja gentílica (At 11.19s.). Ele pode até mesmo ter encontrado Pedro, que visitou essa igreja pelo menos uma vez (Gl 2.11s.). (…) Além disso, deve ter aprendido muito com Paulo, que, embora não tenha sido um perseguidor de Cristo antes da crucificação, deve ter-se empenhado diligentemente após a conversão a fim de obter o maior conhecimento possível de tudo quanto lhe dizia respeito. (…) Além disso, parece que Lucas viveu dois anos na Palestina ou em suas vizinhanças durante a última visita e encarceramento de Paulo em Cesareia (At 24.27). Esses anos lhe proporcionaram oportunidades ímpares para aumentar os conhecimentos relativos à vida de Jesus e à igreja em seus primórdios. Sabe-se que pelo menos uma vez, Lucas se encontrou com Tiago, irmão de Jesus; e ele pode ter tido outras oportunidades para entrar em contato mais íntimo com os membros da sagrada família. Parte de seu material especial reflete a tradição oral aramaica, que Lucas recebeu vários informantes palestinos, enquanto que outras partes desse material são derivadas, evidentemente, de helenistas cristãos. Em particular, há razão para crer que muitas das informações que Lucas usou no terceiro evangelho e em Atos veio de Filipe e de sua família em Cesareia (At 21.8s.). Com base na autoridade de Papas e em outros escritores antigos, Eusébio conta-nos que posteriormente as quatro filhas de Filipe, possuidoras de dom profético, ficaram famosas na igreja como autoridades em relatar a história daqueles primeiros dias.” (BRUCE, pp. 55, 56).

Quando esteve na Palestina, talvez teve a oportunidade de conhecer alguns familiares de Jesus que ainda viviam na época. Sobre isso pontuou Robertson:

“Na Palestina ele poderia ter acesso a pessoas familiares com a vida e ensinos terrenos de Jesus e quaisquer documentos que já estivessem produzidos a respeito destas questões. Lucas pode ter produzido o Evangelho diante o final da estada de Paulo em Cesareia ou durante a primeira parte da primeira prisão romana, em algum ponto entre 59 e 62 d.C.” (ROBERTSON, p.18).

Possivelmente, Lucas consultou a própria Maria, mãe de Jesus, a respeito da vida de Jesus, principalmente no que diz respeito à infância de Jesus.

V- A MORTE DE LUCAS: 

A Bíblia não relata nada sobre a morte de Lucas. Nesse quesito, a história também não contribui de forma unânime.

“Os estudiosos de sua biografia nos deixam incertezas, sobre as circunstâncias de sua morte. Poderá ter sido martirizado, por ser cristão e vítima da perseguição dos romanos ao cristianismo, sem relatos escritos para confirmação; segundo outros Lucas morreu de morte natural em idade avançada, muitos biógrafos de Lucas colocam 84 anos a idade de sua morte. Permanece no mistério sua sepultura e onde repousam os restos mortais. A Igreja Católica, afirma que conserva seus despojos em Pádua, na Itália, onde há um jazigo com o seu nome, que é visitado pelos peregrinos, nesta cidade.” (DOUGLAS, pp. 966, 967).

No “Prólogo Anti-Marcionita ao Evangelho de São Lucas” está registrado as seguintes palavras: “Lucas é um sírio de Antioquia, sírio pela raça, médico de profissão. Tornou-se discípulo dos apóstolos e mais tarde seguiu a Paulo até ao seu martírio. Tendo servido o Senhor com perseverança, solteiro e sem filhos, cheio da graça do Espírito Santo, morreu com 84 anos de idade.” [01].

Nesse trecho, é descrito que Lucas morreu aos 84 anos de idade, ou seja, ele chegou à ditosa velhice.

Sobre o local de sua morte, o erudito Douglas, J. D, nos informa que Lucas “faleceu em Boécia, na Grécia, com a idade de 84 anos.” (DOUGLAS, p. 967). Porém, existem outros relatos de onde teria sido o local de sua morte, conforme veremos abaixo:

“Com a execução do apóstolo e seu mestre (67), deixou Roma e, de acordo com a tradição cristã, enquanto escrevia seu Evangelho, teria pregado em Acaia, na Beócia e também na Bitínia, onde teria morrido (70). Porém existem várias versões sobre o local e como morreu. Uma versão registra que foi martirizado em Patras e, segundo outras, em Roma, ou ainda em Tebas. Comprometido com a verdade histórica, registrou em seu evangelho o que ouvira diretamente dos apóstolos e discípulos que testemunharam a vida de Jesus”. [02].

Conclusão: Lucas é um dos personagens da Bíblia que têm muito a nos ensinar. Não só pelo que fez, com também pelo que deixou escrito. Era historiador, fez história, participou da história, entrou para história e hoje é alguém tão familiar para os cristãos. Foi um vaso nas mãos do Senhor Jesus, e nos monstra que devemos ser fiéis a Deus em tudo quanto fizermos para ele. Assim como Lucas, devemos sempre cooperar com o Evangelho, ajudar os que precisam, orientar e instruir os que estão interessados em aprender a Palavra de Deus! Não é uma tarefa fácil, pois está repleta de desafios e dificuldades. Porém, Jesus está conosco para nos ajudar. Lucas não estava satisfeito em conseguir as coisas fáceis, por isso procurou pesquisar com diligência tudo quanto escreveu. Que possamos também conservar essas características para que nossas obras resultem em glorificação a Deus!